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aqua park

o aqua park não é o que é
por causa do tobogã

o aqua park não é o que é
por causa do trampolim

o aqua park não é o que é
por causa da piscina de ondas

nem da lanchonete
nem do barco do amor
nem do tanque dos golfinhos

o aqua park é o que é
porque lá ninguém tem medo
de se molhar

ilustra: Victor Heringer | automatografo.org

rocha: modo de usar

certa vez em um museu
de algum país estrangeiro
vi uma obra que não era senão
uma enorme pedra disforme
toscamente lapidada
postada no meio do salão
fugi de lá correndo
e desde então evito entrar em museus
não que a tal pedra me causasse asco
mas pelo receio de não resistir ao desejo - não: necessidade imperiosa -
de passar o resto da vida buscando enormes pedras disformes
e as desbastando uma a uma com minhas mãos nuas
hoje estive em um museu
eis aqui a rocha nova
eis aqui meus dedos rompidos
calos, cortes, sangue
o que dá medo na altura não é o risco
da queda mas sim
a vontade de pular

hey jack

24/7

the following takes place
between your birth and your death

events occur in real time. 

ilustra: leonilson

a arqueologia é tão possível quanto a tradução

para/com Daniella Rabello

cachorro é dog
mas dog
não é cachorro não

pedra lascada era martelo
mas martelo não é mais aquele

late, morde
bate, mata

(não se faz mais
como antigamente)

ilustra: cidade subterrânea de Derinkuyu

"vocês não estão entendendo NADA!"

[imprensa] ruído
sem o qual nada é ouvido
com o qual tudo é mal
-entendido

http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,caetano-veloso-comenta-fim-de-trilogia,967380,0.htm

(o repórter chega com uma tese na cabeça: "caetano se distanciou das canções". a cada resposta, caetano mostra que não, que faz o mesmo de sempre, que foi a canção quem mudou, o tempo que passou, que a canção não está no violão, que não, que não. super calmo e claro. o repórter: a canção, a canção, a ana de holanda, o mensalão. haja. vale pelas respostas serenas e sumarentas do caetano. super claro e calmo. boas pra quem quer ouvir. depois vai o mesmo repórter e lança a matéria tirada da entrevista. o título? " 'Abraçaço' fecha a fase que distanciou Caetano Veloso das canções" (!) . perguntou e não ouviu nenhuma resposta. não é só a bossa nova que é foda.)

band-aid


arrancar aos poucos ou
de uma só vez?

questão de preferência
coragem
resistência

a ferida exposta
cicatrizará mais rápido?
ou correrá mais risco
de infeccionar?

(dor, gangrena, amputação
e a comiseração algo repugnada
dos transeuntes)

só uma coisa se sabe
não funcionar:
tentar colar de volta
depois de puxar.


beleza beleza beleza

o lamento da feia ao chegar na festa

- por que é que eu não vim
de saia branca
blusa azul
e meia-calça preta?


[hum brinquedo bobo para/com Mariano Marovatto
ilustra do kioskerman]

meus vinte anos de boy

eu tenho um conto
eu tenho um primo
minha mãe perdeu
um dente
(isto sim é uma piada
interna
e ela já dura vinte anos)

---
[com Wilson Reis, Alejandro Zerbino e Marília Palmeira]

o náufrago resgatado


após 20 anos na ilha
ao zarpar enfim rumo ao porto
constatar com espanto a dor
de deixar a palmeira para trás

no sentido do Leblon

andando ontem pelo Leblon
nada fazia sentido

("isto não faz sentido"
era a frase que me vinha
diante de tudo)

até que -
frozen yogurt - agora em casquinha - R$ 2,90

"isto faz sentido", aventei
- quero um, por favor.
e fez.

questo è un altro gelato
ma il gelato è sempre giusto

houve uma vez um leão

houve uma vez um leão
para L. Nilson e Gabriel G.G.


caminhava pela noite levando um buquê de leão.

de volta à casa, escrevi:
"caminhava pela noite
levando um buquê de leão."

buquê de leão? deve ser engano
pensou o revisor apressado
pôs-me nas mãos então um buquê
de dentes-de-leão (que nunca levei
e aliás nem sei como são)

(e não foram sequer dentes-de-leão
mas sim taráxacos, conforme lhe indicou
o dicionário online de botânica)

o tradutor francês, por sua vez
trabalhava ouvindo música
e me enfiou un bouquet des violettes
que o tradutor inglês
(por veleidade ou implicância)
prontamente replantou como lilies

a tradução cingalesa não comento
que de Sinhala não entendo uma pétala

mas decerto era bem insossa
visto que João Karragota
ao vertê-la de volta para o Português
descartou o original por completo
trocando meus versos por outros, de sua autoria
(muito bonitos, por sinal
mas que de leão não traziam
nem um pelo da cauda)

e assim se perdeu o leão pelo caminho
das palavras, depois de sem susto trilhar comigo
o da noite.

paciência, meu caro:
era mesmo demais esperar
que tua basta juba escapasse
ao fio cego da lâmina da tradução.

[saiba mais sobre João Karragota
o único tradutor Sinhala-Português do Brasil:

dois (nem tão) antigos

[encontrei datilografados aqui] 
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falar é impreciso

conta-se que certa feita
dois amantes leram juntos
um poema de Eugénio de Andrade
e jamais tornaram a dizer palavra
(pois nenhuma mais havia
que precisasse ser dita)

---

deleite

vinham os três pela calçada:
homem, mulher e a menina
que mordia um cachorro-quente

quando passaram por mim
pude ouvi-la dizer:
- pai, este cachorro-quente está uma delícia!


einen kaffee, bitte

[este post era um comentário a este aqui. cresceu, trouxe pra cá.]

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Ricardo! fiquei feliz e emocionado com nosso inesperado café da manhã.

não é a primeira vez que a música opera seu poder de transporte para nos unir, não é mesmo? (vide happiness is a warm gun). e certamente não será a última.

somos música sólida. num instante cruzamos o tempo, que dizer de um obstáculo menor como o espaço?

mas desta vez foi uma música "minha". minhas aspas vêm das tuas: "Eis esta pequena coisa, é o melhor de mim, pertence desde já ao domínio público".

que coisa forte de se dizer, meu caro; essa capacidade de criar coisas que sempre existiram me fascina, é uma coisa que noto sempre ao pensar no Dorival Caymmi.

eu acho incrível ter vivido tantos anos no mesmo planeta (no mesmo tempo) em que ele era vivo. "minha jangada vai sair pro mar..." hein, alguém /compôs/ isso? como assim? claro que não. se é o corpo de som mesmo do qual somos feitos - nós, pessoas, e nós o espaço físico, o lugar, o país.

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já que este comentário foi feito em post, vou-me permitir encerrá-lo com outro encontro nosso a três (pelo visto temos o hábito - privilégio! - de nos fazer acompanhar por mulheres incríveis). não canso de dizer o quanto esse encontro me trouxe alegrias - e o quanto nos sinto ligados nele, através dele.



bom dia, querido amigo! there's more to life than trouble und desire.

[o verso do verso do victor]

se este verso
                       se estiver só
                                             se tiver só
                                                                este verso
                                                                                  será o bastante
                                                                                  será o bastante
                                                                                  será o bastante
                                                                                  será o bastante.

---

[verso deste:]

perdi o sono



perdi o sono
foi em 1987
em 1994
ou 2006
atrás da estante
embaixo da geladeira
no vão do sofá
(lápis moeda poeira
grampo de cabelo
sono que é bom nada)
não lembro bem
não sei dizer
alguém me empreste
um guarda-chuva
eu gosto de chuva
e queria dormir.