Mostrando postagens com marcador foto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador foto. Mostrar todas as postagens

rocha: modo de usar

certa vez em um museu
de algum país estrangeiro
vi uma obra que não era senão
uma enorme pedra disforme
toscamente lapidada
postada no meio do salão
fugi de lá correndo
e desde então evito entrar em museus
não que a tal pedra me causasse asco
mas pelo receio de não resistir ao desejo - não: necessidade imperiosa -
de passar o resto da vida buscando enormes pedras disformes
e as desbastando uma a uma com minhas mãos nuas
hoje estive em um museu
eis aqui a rocha nova
eis aqui meus dedos rompidos
calos, cortes, sangue
o que dá medo na altura não é o risco
da queda mas sim
a vontade de pular

dia de sol no clube silêncio

é um clube? há piscinas. pequenas, duas, três. crianças brincam. há também uma plateia - fileiras de cadeiras em degraus suaves. à beira das piscininhas, a céu aberto, sob o sol. do outro lado das piscinas - bem perto - montou-se um palquinho: caixas e mesa de som, amplificadores, bateria, microfones. uma banda evangélica infantil começa a tocar, para alegria de muitos dos presentes. afasto-me das piscinas e subo à última fileira da arquibancada. enquanto subo, caetano veloso assume o palco. começa por contar que viu "o grupo escocês belle & sebastian fazer uma versão horrível de sua (dele) música 'baby'"; que, "se estavam tentando conquistá-lo, os belle & sebastian tinham errado de cara numa coisa: o batom."

nesse ponto chego lá em cima - pra falar com silvia, que está com juli e outras amigas (eu as havia encontrado mais cedo em casa). mas estão na outra ponta da fileira, terei que passar entre as cadeiras pra alcançá-las. nas primeiras cadeiras da ponta de cá encontro marina e tio hely. bem na hora em que caetano vocifera sobre o batom errado dos belle & sebastian. atenta ao palco, marina me cumprimenta brevemente e se levanta pra me dar passagem. em seguida passo por tio hely que, vestindo uma camisa de listras verticais brancas e vermelhas, observa caetano entre intrigado e mau-humorado. tio hely já morreu, então acho melhor falar normalmente com ele; de outro modo, estranharia eu não falar, talvez se desse conta de seu engano de condição - vivo por morto - e sumisse de novo. - e aí, tio? tá nervoso, ele, né? tio hely arma seu típico sorriso jocoso de canto de boca. - tá, né, meu filho? nervosinho ele. e ri.

band-aid


arrancar aos poucos ou
de uma só vez?

questão de preferência
coragem
resistência

a ferida exposta
cicatrizará mais rápido?
ou correrá mais risco
de infeccionar?

(dor, gangrena, amputação
e a comiseração algo repugnada
dos transeuntes)

só uma coisa se sabe
não funcionar:
tentar colar de volta
depois de puxar.


Why so brief?


From blue to red

If all birds were red,
The skies would seem less blue.
So freeze all hours at sunset,
And portrait this moment in a new tattoo.
Let me just stay here to gaze and wonder what would happen if…
But o darling why so brief?


poema de Rodrigo Caiuby
publicado originalmente em seu blog homem de azul em 10 de outubro de 2008

musicado por Dimitri BR
entre 17 e 18 de outubro de 2008

foto de Ana Kemper

houve uma vez um leão

houve uma vez um leão
para L. Nilson e Gabriel G.G.


caminhava pela noite levando um buquê de leão.

de volta à casa, escrevi:
"caminhava pela noite
levando um buquê de leão."

buquê de leão? deve ser engano
pensou o revisor apressado
pôs-me nas mãos então um buquê
de dentes-de-leão (que nunca levei
e aliás nem sei como são)

(e não foram sequer dentes-de-leão
mas sim taráxacos, conforme lhe indicou
o dicionário online de botânica)

o tradutor francês, por sua vez
trabalhava ouvindo música
e me enfiou un bouquet des violettes
que o tradutor inglês
(por veleidade ou implicância)
prontamente replantou como lilies

a tradução cingalesa não comento
que de Sinhala não entendo uma pétala

mas decerto era bem insossa
visto que João Karragota
ao vertê-la de volta para o Português
descartou o original por completo
trocando meus versos por outros, de sua autoria
(muito bonitos, por sinal
mas que de leão não traziam
nem um pelo da cauda)

e assim se perdeu o leão pelo caminho
das palavras, depois de sem susto trilhar comigo
o da noite.

paciência, meu caro:
era mesmo demais esperar
que tua basta juba escapasse
ao fio cego da lâmina da tradução.

[saiba mais sobre João Karragota
o único tradutor Sinhala-Português do Brasil:

Groo

Groo, o Errante

viver é errar / e consertar
(um acerto é um erro / que errou de lugar)

sinédoque

toda vez que vejo um filme eu me apaixono

pela atriz eu penso
mas é pela personagem
eu penso mas é
pelo diretor mas é
pelo filme pelo cinema
pela arte eu penso
mas é pelo mundo

no mundo existe ela
com quem a atriz se parece
não, a personagem
(não, nenhuma das duas
que só me encantam por ela)

ela por quem penso
me apaixonar agora
e por quem canto há dias
a mesma música sem voz.

Cachorra

para Rafael Mantovani

mijo na proa, depois
na popa - e pronto:
território demarcado.

(como então só
tu não sabes
me pertencer?)







foto de Clio20

mim existe rocha

para B.Z.

eu não nasci ontem
não morri amanhã
mudo em eras geológicas
tão lento que não se nota
o erodir da superfície
duro
muito mais que a vida
e a morte.

ect etc

chego em casa pensando em escrever
mas o correio quer que eu leia

não tenho dinheiro
alegro-me
não me chegam contas

anúncios catálogos propostas
de cartão-de-crédito
só livros

livros somente e sempre
usados ou inéditos
(ou um pouco de cada)

todos os dias aprendo palavras novas e bonitas
só para nós dois

apaixonou-se por um envelope amarelo
de bordas arredondadas

destropicalismo

Apatia, apatia
[para Laura Liuzzi]

caminhando – não: parados
lado a lado e o ar – parado
encostados contra o muro
pelotão de fuzilados
no sol, na chuva
janeiro, dezembro
é quase, é sempre
é quase
nem bomba nem brigite
quem lê? nada é notícia
por que não? por que sim?
tudo vai, tudo vão
acabou o festival
acabou o festival
acabou o festival
acabou o festival

0/1


10:30 Carolina está on-line. 10:47 Carolina não está on-line. 16:38 Carolina está on-line. 16:45 Carolina não está on-line. 17:19 Carolina está on-line. 17:25 Carolina não está on-line. 20:01 Carolina está on-line. 20:06 Carolina não está on-line. 20:12 Carolina está on-line. 22:17 Carolina não está on-line.

formiga

na próxima encarnação
eu quero nascer formiga
trabalho duro no verão
que sonho não enche barriga

no inverno descansar e então
cigarras cantem por comida
migalhas dou por sua canção
minha vingança de formiga