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houve uma vez um leão

houve uma vez um leão
para L. Nilson e Gabriel G.G.


caminhava pela noite levando um buquê de leão.

de volta à casa, escrevi:
"caminhava pela noite
levando um buquê de leão."

buquê de leão? deve ser engano
pensou o revisor apressado
pôs-me nas mãos então um buquê
de dentes-de-leão (que nunca levei
e aliás nem sei como são)

(e não foram sequer dentes-de-leão
mas sim taráxacos, conforme lhe indicou
o dicionário online de botânica)

o tradutor francês, por sua vez
trabalhava ouvindo música
e me enfiou un bouquet des violettes
que o tradutor inglês
(por veleidade ou implicância)
prontamente replantou como lilies

a tradução cingalesa não comento
que de Sinhala não entendo uma pétala

mas decerto era bem insossa
visto que João Karragota
ao vertê-la de volta para o Português
descartou o original por completo
trocando meus versos por outros, de sua autoria
(muito bonitos, por sinal
mas que de leão não traziam
nem um pelo da cauda)

e assim se perdeu o leão pelo caminho
das palavras, depois de sem susto trilhar comigo
o da noite.

paciência, meu caro:
era mesmo demais esperar
que tua basta juba escapasse
ao fio cego da lâmina da tradução.

[saiba mais sobre João Karragota
o único tradutor Sinhala-Português do Brasil:

3 perguntas 1 proposta

e se, antes de mandar

- o livro pro prelo

- a música pra rádio

- o voto pra urna

- o filho pra guerra

- o outro à merda

- ...

a gente se fizer sempre essas 3 breves perguntas:

1. acredito no que digo?

2. sinto ser importante dizê-lo?

3. é o melhor que posso fazer?

e aí, quem topa?

essa do Liniers também é uma boa

ect etc

chego em casa pensando em escrever
mas o correio quer que eu leia

não tenho dinheiro
alegro-me
não me chegam contas

anúncios catálogos propostas
de cartão-de-crédito
só livros

livros somente e sempre
usados ou inéditos
(ou um pouco de cada)

todos os dias aprendo palavras novas e bonitas
só para nós dois

apaixonou-se por um envelope amarelo
de bordas arredondadas

excertos de um mês (agradavelmente) movimentado

da esquerda para a direita:
os autores Flávia Muniz, Ismar Tirelli Neto, Fernando Paiva
e os irmãos-editores Silvia e Dimitri B. R.ebello

foto tirada por Luís Dreyfuss (tio da recém-nascida Alice!)
no lançamento da Coleção Compacto Simples (dia 13/12)

para eles*

1. [a Carlito Azevedo]

o elogio que lhe posso fazer:
seu poema
não dava uma música.

2. [a Ricardo Domeneck]

em minha memória

meu biógrafo morreu
antes de mim

não importa:
a posteridade é para os mortos.

---
*poemas escritos no calor das leituras de Ricardo Domeneck e Carlito Azevedo, no lançamento de seus novos livros e da revista Modo de Usar & Co (além de livros de Walter Gam e Felipe Nepomuceno) na Livraria Berinjela (dia 12/12).

escambo de livros na bienal

estante virtual, livro real
eu já gostava da estante virtual - site que, com a simplicidade das idéias geniais, reúne o catálogo de milhares de sebos ao redor do Brasil, e os disponibiliza de forma organizada e com uma ferramenta de busca eficiente (não perfeita, mas muito eficiente e versátil).

escambo na bienal
eis que hoje recebo a newsletter da estante, que informa de sua participação na próxima bienal do livro. um parágrafo chamou minha atenção:


"Ofereceremos um serviço totalmente inédito nas Bienais: a troca de livros. Como funciona? Leve para a Bienal um livro que você já leu e troque no nosso stand por qualquer livro da estante gigante. Simples assim, 1 por 1*. E ao final do evento, os livros que estiverem no stand serão doados para estimular a leitura em alguma instituição ou comunidade que os próprios visitantes do stand vão indicar."

legal, né? eu achei.

dando uma idéia
algum descrente de plantão pode argumentar que "não vai ter nada que preste" na xepa literária; pode até ser.
mas quantas idéias- no sentido abrangente, de ideologia - estão embutidas nessa proposta tão simples?

por exemplo, a de que o que não presta pra um pode sempre prestar para outro. que livros devem ser lidos. que trocar/doar é melhor que comprar/vender. entre outras.e antes de todas, com certeza, a de que poucos objetos são tão potentes quanto um livro. sobretudo uma vez aberto.

por essas e outras simpatizei com a idéia e, caso vá à bienal (pretendo ir), levarei um ou dois livros para tentar exercitar o desapego e a intrepidez no troca-troca literário da estante.

quem vamos?
aliás e a propósito: sei que há quem desgoste da própria bienal (mesmo, ou sobretudo entre os amantes de livros).

quanto a mim, talvez por uma nostalgia dos tempos de criança-leitor, conservo um deleite bobo e inocente que me acomete só por estar cercado de tantos livros e de tantas pessoas mobilizadas - nos mais diversos níveis - em função desse objeto-ícone, desse totem de papel e tinta (ih, se empolgou).

MAS como sei que nem todo mundo compartilha dessa minha visão (algo ingênua, consinto), aproveito pra perguntar: o que vocês acham da bienal? quem mais pretende ir lá, a trabalho ou como visitante?

aqui e agora

"O homem está se acostumando a aceitar passivamente uma constante invasão sensorial. E essa atitude passiva acaba sendo uma servidão mental, uma verdadeira escravidão.
Mas há um jeito de contribuir para a proteção da humanidade, e é não se conformar. Não assistir com indiferença ao desaparecimento da infinita riqueza que forma o universo que nos rodeia, com suas cores, sons e perfumes. (...)

Não há outro modo de atingir a eternidade a não ser aprofundando-se no instante, nem outra forma de chegar à universalidade que não através da própria circunstância: o aqui e agora. Mas como? Revalorizando o pequeno lugar e o breve tempo em que vivemos, (...) que estão sagradamente impregnados da humanidade das pessoas que neles vivem. (...)


Porque o homem faz com os objetos o mesmo que a alma realiza com o corpo, impregnando-o de seus desejos e sentimentos (...)

Se nos tornarmos incapazes de criar um clima de beleza no pequeno mundo ao nosso redor e só atentarmos às razões do trabalho, muitas vezes desumanizado e competitivo, como poderemos resistir?

A presença do homem se manifesta numa mesa arrumada, numa pilha de discos, num livro, num brinquedo. O contato com qualquer obra humana evoca em nós a vida do outro, deixa rastros que nos inclinam a reconhecê-lo e a encontrá-lo. Vivendo como autômatos, seremos cegos aos rastros que os homens vão deixando, como as pedrinhas que João e Maria jogavam no caminho na esperança de serem encontrados."

[trechos de "A Resistência", de Ernesto Sábato. ilustra de Liniers.]

a posteridade é para os mortos

"O que chamam de homem superior é um homem que se enganou. Para admirá-lo, é preciso vê-lo - e para ser visto, é preciso que se mostre. E ele me mostra que a tola mania de seu nome o possui. Assim, todo grande homem está manchado por um erro. Todo espírito que todos consideram poderoso começa com a falta que o torna conhecido. Em troca das gorjetas do público, ele doa o tempo necessário para tornar-se perceptível, a energia dissipada em transmitir-se e em preparar a satisfação alheia."

[Paul Valéry - Monsieur Teste]


[ilustra: royal art lodge]

decifre o código

o manual do espião foi uma pequena febre para mim e meu círculo de amigos, aos 7-8 anos de idade. o manual do detetive também, embora nossa preferência pelo primeiro, ainda que talvez injusta, fosse evidente (e facilmente explicável: é muito mais legal ser espião que detetive, né?).

com capítulos tratando de assuntos variados e instigantes - "como seguir suspeitos", "por que usar disfarces", "aprenda a observar", "ver sem ser visto" e afins - esses dois livrinhos eram excelente alimento para nossas brincadeiras de crianças da guerra fria.

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o poema abaixo eu escrevi ontem. mas só porque, há mais de duas décadas atrás, o pequeno dimitri disputava, semana após semana, o empréstimo do manual do espião na biblioteca do clube, após a aula de natação, com um rival então desconhecido - que era, anos depois descobrimos, o tiago saboga.

leia, portanto, tendo isso em mente...

[será mesmo que a vida sem mistério não teria tanta graça?]

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mensagem secreta

meu coração
está gelado
não é de hoje
sente esta falta
ausência dura
gesto vazio
espera vã
mistério não há

segredo nenhum
esconde esse medo
carta que não chega
registro apagado
enigma sabido
tediosa clareza
anêmica verdade

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[e aí, decifrou? =]

é no tempo

"a música é de longe o meio mais poderoso descoberto pelos seres humanos para dar estrutura ao tempo."

[Stephen Koch - oficina de escritores]

a parte e o todo

"(...)não faz parte de um todo aquilo cuja existência ou inexistência não implica em alteração desse todo."

[livremente adaptado da Poética de Aristóteles, apud Massaud Moisés]

biblioteca privada

um grupo de teatro espanhol fez uma peça sobre uma editora que publicava livros em papel higiêncio.

daí a idéia era muito melhor que a peça e eles partiram para a prática:

www.literaturaenpapelhigienico.com

além de clássicos e textos bíblicos, eles também publicam novos autores que se interessem em ter um contato mais íntimo com o leitor anônimo.

isso é que é slogan:
"já disseram que o que você escreve é uma merda?"

(eu gostei. será que Rodolfo, Carlos Alberto e Teófilo [vide post abaixo] aprovariam? )

vinte mil livros submarinos

Rodolfo, Carlos Alberto e Teófilo não se conhecem, mas têm algo em comum: adoram ler no banho.

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Rodolfo é muito rico. Mandou fazer cópias em plástico de todos os volumes de sua vasta biblioteca.

"Não importa o custo."

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Carlos Alberto é ainda mais rico que Rodolfo. Muito mais. Leva os livros para a banheira assim, sem piedade. Mesmo os mais raros.

"Se estragar, foda-se: compro outro."

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Teófilo não é nada rico. Sentado sob o chuveiro, abre a porta do box e se contorce para ler o livro que mantém do lado de fora.

"É uma delícia ler sentindo a água cair nas costas."

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Usando de sua influência na sociedade, Rodolfo conseguiu que a Cia. das Letras se comprometesse a confeccionar uma cópia em plástico de todos os seus futuros lançamentos.

Rodolfo bancou o projeto, ao qual deu o nome pomposo - e cretino - de Coleção Nemo.

(Não sabe ele que Lucila, designada à revelia editora responsável pela "Nemo", só se refere à mesma como "Coleção Pandolfo". Só de birra.)

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Carlos Alberto decidiu precaver-se quanto a danos irreversíveis em seus volumes, e passou a adquirir de saída várias cópias de cada publicação.

Duas no mínimo, dos livros que jamais tem intenção de ler. Cinco dos best-sellers de ocasião. Dez ou vinte de suas obras prediletas. De cada edição delas.

(Silvia recebeu a dica e já acertou com Carlos Alberto o fornecimento de um lote inteiro da nova tiragem da Enciclopédia dos Orixás, da Pallas.)

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Mesmo se sentindo culpado, Teófilo se alegrou com a notícia de um pequeno incêndio na Livraria da Travessa. Ninguém se feriu, e caixas e caixas de livros foram inundadas pelo sistema anti-fogo.

Teófilo logo se prontificou a ficar com alguns dos exemplares encharcados. Segue, entretanto, tentando proteger seus livros dos respingos, enquanto sonha com uma banheira com tábua de apoio.

(Carolina prometeu ficar de olho no estoque, mas acha que a Travessa terá de devolver os livros ensopados para receber o seguro.)

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glub, glub, glub.

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[este texto é carinhosamente dedicado aos meus muitos amigos que trabalham com dedicação nas mais diversas ramificações da indústria literária. e ao Júlio Verne, obsessão literária da minha infância. :]

(im)possibilidades


adoro impossibilidades concretas.

aliás, creio que estas exercem um fascínio inerente sobre boa parte dos seres humanos, haja vista a grande aceitação que tem os desenhos do Escher, com seus ângulos e perspectivas absurdos, onde em cima é embaixo e dentro é fora.

talvez isso seja conseqüência da nossa vontade de que impossíveis aconteçam; quanto a mim, na verdade, acho que a primeira sedução dessas contradições concretizadas seja a diversão da quebra de expectativa, mesmo, e meu gosto de longa data pela engenhosidade.

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quando criança, eu adorava um velho livro chamado algo como "almanaque de objetos insólitos". eu e meu principal comparsa de invenções na época, Erik Kohler (que também foi, muito estranhamente, a primeira pessoa a cantar comigo num palco!) não apenas líamos o livro à exaustão, como criávamos nossos próprios objetos estapafúrdios, cuidadosamente registrados, descritos e ilustrados em papéis que o Erik guardava num álbum (o qual, ouvi dizer, ainda existe! cara, queria ver isso).

[alguns anos depois, descobri que outro amigo também tinha - e adorava - um raro exemplar desse velho livro: Tiago Saboga, que viria a ser um dos meus amigos mais próximos a partir da adolescência, após uma infância repleta de paralelismos, na qual a única coincidência que faltou foi mesmo a de nos conhecermos.]

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ao caro leitor que alcançou este ponto do texto, chegou a hora de confessar que não me lembro exatamente por que resolvi escrevê-lo (!?). tive essa idéia ontem/hoje, ao voltar pra casa umas 5h da manhã; já fiquei contente, portanto, de ter lembrado dela de todo. :P

achei que o tema permitia que eu escrevesse mesmo sem lembrar exatamente a razão. um nadinha de absurdo pode fazer maravilhas pelo nosso dia. :]

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mas de uma coisa lembro-me bem: queria postar dois dos meus exemplos favoritos de impossibilidades realizadas. estão em duas letras de canções, de artistas sem (quase) nenhuma relação um com o outro.

aí vão:

1. "i was 21 years when i wrote this song / i am 22 now, and i won't be for long"
[billy bragg, em sua canção-tema "new england"]

- afinal, qual a idade do eu-lírico billy??

2. "Essa parte do texto eu ainda estou maquinando / Tem que ser direto e epidêmico / Não esquecerei de mencionar os banqueiros americanos / César há de tremer / Viva México!"
[Fred 04 (do mundo livre s/a), em "desafiando roma"]

- certo, ele ainda está maquinando essa parte. é por isso que não estamos ouvindo ele cantar. ei, espera aí.

que acharam? se alguém lembrar de mais exemplos, diga aí! gostaria de compilá-los.

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em tempo: o objeto que ilustra este post, contrariando a impressão que possa dar ( :D ) não foi retirado do tal compêndio de objetos insólitos; trata-se de uma instrumento real, a harp-guitar. descobri este e muitos outros instrumentos bizarros e interessantes numa recente pesquisa motivada por uma consulta da Ana Sol.

essa foto aí foi tirada da wikipedia, mas a minha busca também me levou a conhecer este site ótimo, o Atlas of plucked instruments.

(de repente eu faço um post só sobre instrumentos escalafobéticos, outro dia desses.)

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abraços paratodos!

rei com rei

ayayay "eu sou / a verdadeira minoriaaa"

;]

...mais um oferecimento do seu serviço humdeabril de notícias:
"Escolas primárias britânicas ensinarão contos infantis gays
Escolas britânicas estão introduzindo contos infantis com temática gay para crianças entre quatro e 11 anos de idade.

A iniciativa piloto foi criada para familiarizar as crianças com as relações homossexuais e adaptar o currículo a um conjunto de novas leis que entra em vigor em abril, conhecido como Ato de Igualdade, que visa reduzir desigualdades sociais e eliminar discriminação no país.

Uma das fábulas, King & King (Rei e Rei), conta a história de um príncipe que rejeita três princesas antes de se apaixonar e se casar com o irmão de uma delas.

Outro conto de fadas mostra uma menina com duas mães e há ainda uma história sobre a relação de dois pingüins machos em um zoológico de Nova York.

Polêmica

O projeto, que está sendo testado em 14 escolas primárias do país, foi desenvolvido pela Universidade de Sunderland.

“O objetivo é ajudar as escolas a atingirem seus requerimentos sob o Ato de Igualdade. Há muito pouco disponível no momento para permitir que eles atendam às necessidades de todos os alunos”, disse Elizabeth Atinkson, da Universidade de Sunderland, ao jornal Daily Mail.

Mas o projeto está gerando protestos de grupos católicos, que consideram o os livros como “material didático inapropriado”.

“As previsões de que as novas leis resultariam na promoção ativa da homossexualidade nas escolas estão virando realidade”, disse Simon Calvert, do Instituto Cristão.

O governo diz que cada escola poderá decidir o que irá ensinar mesmo depois que as leis do Ato de Igualdade entrarem em vigor."

simpática a capa do livrinho - mas

pras crianças com quem convivo

isso não é nenhuma novidade...