criatividade

sempre estudei em colégios incríveis.

da alfabetização à quarta série, estudei no saudoso Instituto Sto. André - duplamente saudoso: pelas boas lembranças, mas também por ter, infelizmente, fechado.

mas muitos anos antes, eu e muitas outras crianças tivemos a sorte de estudar lá (bem , nem foram tantas assim: era um colégio pequeno... mas basta falar com um ex-aluno, ou dar uma olhada lá na comunidade do Sto. André no orkut, pra perceber o quanto ele marcou positivamente a vida dessa restrita população de sortudos que estudaram lá).

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na 3a e 4a séries tínhamos duas professoras e quatro matérias: Leila ensinava Matemática e Ciências, e Kédma, Português e Estudos Sociais.

ambas eram ótimas professoras (a despeito de serem "especialistas", cada uma, em uma das matérias que lecionavam - Matemática e Português, respectivamente).

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ao longo das duas séries - ou seja, dois anos letivos inteiros, quantos dias de aula dá isso? algum professor arrsica um cálculo aproximado? - Kédma nos passava um dever-de-casa fixo: a criatividade aí do título do post.

a formulação desse dever era muito simples: nós alunos deveríamos escrever em casa uma redação por dia.

uma redação por dia! simples, não?

parece muito?

bem, mas era isso aí. e valia de tudo: qualquer assunto, qualquer formato, qualquer tamanho - mas tinha de ser uma por dia.

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já viram porque lembrei disso agora? bem, porque postar todo dia é próximo disso, né.

e hoje eu apertei o "criar novo post" sem fazer idéia do que iria escrever...

naquela época também havia dias em que a tal da inspiração custava a vir.

[n. do ed.: se existe tal coisa - "inspiração" -, e no que consiste, é um assunto vasto e polêmico, que deixaremos pra outro dia.]

mas com ou sem inspiração, era preciso sentar e escrever.

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e era o que eu fazia. foi o que eu fiz, durante dois anos, centenas de dias.

centenas de textos, escritos com os mais inventivos subterfúgios:

podia narrar um causo que tivesse me acontecido de verdade;

podia reescrever uma história já conhecida, ou lida, ou simplesmente transformar em texto uma piada;

podia criar uma letra de música (sim, desde aquela época... eu fazia a letra e imaginava a música - já que esta não aparecia no caderno. às vezes eram músicas minhas e outras, eram paródias, versões, etc.);

tinha também, no desespero, a opção de fazer cabotinices tipo deixar uma página em branco com o título "a redação do menino sem criatividade", ou enrolar meia página falando sobre como eu estava sem idéias e não ia escrever nada... "ih, não é que eu escrevi!", esse tipo de coisa.

(dêem um desconto, eu tinha 8 e 9 anos, tá :)

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com o tempo, mesmo todas essas opções foram sendo exploradas à exaustão, e ficava cada vez mais difícil bolar uma novidade (porque, é claro, não me bastava fazer o dever, né, eu queria sempre me superar...).

foi então que eu tive a idéia (que novamente pode parecer simples, mas lembrem-se de ver as coisas em perspectiva :) de escrever... um romance!

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bem, não sei se era um romance; o importante era escrever coisas graaandes, em capítulos. no começo eram poucos, coisa de 4, 5 capítulos - isto é, 4 ou 5 dias de dever cumprido!

não demorou pra que iniciasse a maior saga de todas: "Caçadas na África".

tratava-se de um imbroglio absurdo sobre traficantes de jóias, mercenários internacionais, expedições pela selva, o plano Sarney, e muito mais...

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eu me achava muito esperto por estar burlando a obrigatoriedade de inventar um texto novo a cada dia - mas quem foi que disse que era mais fácil escrever sobre um tema só?

sem contar que, empolgado com a história, eu às vezes escrevia 5, 8 páginas numa noite - ao invés da sofrida meia-paginazinha dos dias "sem inspiração".

e quando tinha uma outra boa idéia - ou nenhuma para o "Caçadas", não havia problema:

fazia uma pausa no romance, e o retomava no dia seguinte.

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a história cumpriu sua função: cheguei ao final do colégio antes que ela chegasse ao fim (estava com 96 páginas, se não me engano, e mal tinha começado!).

e a "criatividade" cumpriu também sua função: ao menos para mim, aquele aprendizado do processo criativo, da prática deliberada do processo criativo e, é claro, dos recursos do texto, me valeram para sempre, em cada dia da minha vida (quem me conhece um pouco sabe da minha estreita relação com a linguagem).

[em tempo: já disse que o assunto deste post não é a inspiração, mas esse meu exercício diário da criatividade - bem como seus resultados - fazem parte do que me torna cético quanto à própria existência da "inspiração".]

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a esta altura a querida leitora e demais mui benvindos visitantes já devem ter percebido que eu apliquei hoje o golpe do "ih, não é que escrevi"!

brincadeira ;]

abraços paratodos

(os que vieram até aqui :)

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e permitam-me dedicar este post à Kédma e a todos os bons professores que tive e tenho,

e ao meu querido ex-colega Erik Kohler que, sendo tão malandro e criativo quanto eu - mas também mais pragmático - terminou a quarta série com dois livros completos:

"A Vingança do Drácula", volumes 1 e 2,

totalizando mais de duzentas páginas manuscritas! sensacional!

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Ah! e à Tia Augusta, que voluntariamente datilografou (lembro os mais novos de que não existiam PCs com impressora, muito menos scanners) parte do "Caçadas na África", ditada pelo próprio autor...

8 comentários:

Graziela disse...

Vamos lá:

. 4 meses de férias por ano, sobram 8 meses;
. 22 dias úteis por mês, mas vou contar 26 porque você provavelmente também tinha que escrever uma no fim de semana;
. 2 anos;

isso nos dá mais ou menos 2*8*26 = 416 redacões escritas!

Pronto, taí a sua conta...

e um beijinho para você!

e merci pelas fotos! estou aqui baixando...

saudades, lindinho!

Dimitri BR disse...

repara na foto da malandragem do Paulo Grise e do Dimitri; parece que só o Fernando e a Marininha começavam a notar que estava rolando alguma coisa ali...

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ah, e merci! pelo cálculo. temos, no entanto, que descontar algumas, pois

1 - eu não tinha de escrever nos fins-de-semana (embora escrevesse em aulas e provas, normalmente; mas essas não dá pra computar); e

2 - na quarta série, a Kédma decidiu que a criatividade das sextas-feiras seria substituída pela escolha de uma notícia de jornal; assim, cada aluno tinha de escolher e recortar um notícia, e estar pronto a comentá-la em aula.

vamos ver:

fins-de-semana - 4*8*2 = 48

sextas-feiras da quarta série - 4*8 = 32

se não me enganei nos descontos, na verdade foram apenas 336 criatividades (416-80, é isso, Gra?).

descontados mais alguns dias em que eu não escrevi nada (sim, acontecia, vez ou outra..) dá umas 300, pelo menos.

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AYAYAY beijos Graziela!

abraços paratodos

Mantovani disse...

Comentário do menino sem criatividade







Mas eu adoro acordar e ler o Hum diário!

Dimitri BR disse...

êêê!

Thiago disse...

Droga, Mantovani roubou minha idéia.

Dá um esporro nele, tio!

Dimitri BR disse...

calma, meninos, não briguem :]

Thiaguinho, ao invés de recorrer ao tio, por que não tenta ter uma nova idéia?

se eu pude ter 300 e tantas, você consegue ter mais umazinha, né :P

bjos

carolina disse...

eu ia bem dizer "perto de 400".

minha conta era assim:

180 dias letivos por ano + 180 dias letivos por ano = 360

beijo!

ps. perdi vários dias! ando sem internet no trabalho e ando longe da internet em casa...doeeente...de mudança...
bei-jo e valeuz pelo linkz.

Dimitri BR disse...

calma Carol, eis uma vantagem do blog:

aqui não há dias perdidos!

eles continuam aí :]

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já de mudança?!

escuta, acho que estou precisando de um pouco mais de atualização de sua situação; sabia que você estava procurando casa, mas não sabia que havia essa pressa toda... ô gente rápida ;]

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beijos